SABER FARMÁCIA
- Lincoln Cardoso
- 20 de jul.
- 7 min de leitura
Conhecimento de aplicação prática para gerar soluções e resolver problemas! É este o requisito que faz um profissional ser desejável no mercado de trabalho. No segmento farmacêutico – e nas demais áreas da saúde – não é diferente. Farmacêuticos e profissionais da saúde precisam possuir conhecimentos e habilidades, aplicados na forma de competências, que os permitam atuar de forma proativa e resolutiva diante dos desafios da sociedade. Aplica-se aos farmacêuticos o que eu sempre digo: é preciso saber Farmácia!!
Transformações na formação universitária
Nas duas últimas décadas vem ocorrendo uma expressiva popularização do acesso ao ensino superior no Brasil. Isto tem beneficiado milhares de pessoas que, em tempos remotos, não teriam como cursar uma faculdade. Por um lado, isto é muito bom, ao possibilitar que um número maior de pessoas tenha oportunidades mais promissoras. Contudo, a “industrialização” do processo de formação – priorizando a quantidade, e não a qualidade do ensino – tem gerado um grande número de profissionais sem a devida capacitação para exercer o seu trabalho com convicção e segurança. E, como desfecho, é a sociedade que paga por isto, sendo prejudicada por não receber serviços de qualidade para as suas necessidades fundamentais.
A importância do farmacêutico capacitado
Farmacêuticos são verdadeiros profissionais da saúde, especialistas em fármacos, medicamentos, correlatos e serviços de otimização da farmacoterapia. Portanto, são essenciais para o sistema de saúde em toda a sua extensão. Farmacêuticos atuam no desenvolvimento de novos produtos para a prevenção e recuperação da saúde. Bem como atendem diretamente as pessoas que precisam de cuidados referentes à sua saúde, no sentido de promover qualidade de vida e otimizar o modo como usam seus medicamentos. Farmacêuticos têm o compromisso ético e formal de prover acesso e promover o uso racional dos medicamentos! Portanto, farmacêuticos consistem em um pilar fundamental para a segurança da saúde pública, sendo imprescindíveis para a sociedade. Entretanto, farmacêuticos devem exercer o seu trabalho e as suas responsabilidades com plena convicção, com base em conhecimento de qualidade e nas melhores evidências científicas. Por isso, precisam estar devidamente capacitados, tanto na ênfase da tecnologia dos fármacos, medicamentos e produtos; quanto na ênfase do cuidado das pessoas. E, ao menor indício de necessidade, devem se aperfeiçoar por meio de formação continuada. Farmacêuticos precisam saber Farmácia, de forma ampla e integralizada.
Formação continuada digital
O advento da era digital faz com que a internet das coisas, as relações sociais digitalizadas e a inteligência artificial estejam cada vez mais inseridas em nossas vidas. E todo este arcabouço tecnológico também acelera a produção de informação e conhecimento técnico-científico. Assim, está cada vez mais desafiador manter-se atualizado e capacitado para o exercício profissional. O ensino digital vem se mostrando como o recurso mais avançado, viável e promissor na expansão da formação profissional continuada. Esta opção amplia a capacidade de alcance, bem como proporciona maior flexibilidade de tempo e espaço para que mais pessoas estudem e se aperfeiçoem de forma contínua, progressiva e com aprendizado real.
O triste período da pandemia de COVID-19 – que se deu entre 2020 e 2023 – revelou a amplitude de aplicação e a importância do ensino digital a distância. Nessa época, escolas e universidades, bem como os mais diversos tipos de centros e institutos de educação, formação e capacitação, precisaram desenvolver, adequar e aplicar, em curto espaço de tempo, ferramentas que atendessem à demanda de ensinar a distância, com a mesma qualidade dos métodos presenciais. E algo de bom que pode ser aproveitado desta terrível experiência da humanidade, é o desenvolvimento e a adesão aos sistemas de ensino digitais. A formação de graduação em saúde deve ser presencial, podendo adotar algum nível limitado de recursos digitais no processo de ensino-aprendizagem. Porque nada substitui a experiência presencial na formação universitária em saúde! Por outro lado, a formação continuada pode e deve ser considerada de forma digital, uma vez que este método facilita o acesso ao estudo e ao aperfeiçoamento sempre que necessário.
Por que aprender sempre, e com qualidade?
Aprender é muito mais do que adquirir informação. É um processo ativo, reflexivo e contínuo, no qual o sujeito transforma dados em conhecimento aplicável, desenvolvendo competências, habilidades e atitudes voltadas à resolução de problemas reais do seu campo de atuação. Aprender, portanto, é mobilizar saberes de forma contextualizada e significativa, integrando teoria e prática. Para nós, farmacêuticos, é preciso saber Farmácia!
É redundante explicar sobre o quanto o conhecimento é fundamental para qualquer profissão, inclusive as de nível superior, assim como é a Farmácia. O conhecimento é uma construção! Para a qual são necessários muitos tijolos ou blocos temáticos que constituem diversos fragmentos de informações técnicas, científicas, éticas e sociais que integram o arcabouço do saber. E esse saber é a base, ou o alicerce, do profissional que devemos ser. Então, a qualidade do conhecimento pode ser entendida em três níveis:
- O primeiro nível é a qualidade do conteúdo do conhecimento. Informação com base em evidências. Validada e experimentada por modelos científicos que comprovam a sua veracidade, ou alta probabilidade de verdade. Ou deduzida por pensamento embasado em fundamentos sólidos e reprodutíveis. Informação consensuada por meio de livros de referência, compêndios oficiais e publicações consagradas da ciência.
- O segundo nível é a qualidade didática. Porque é o método que proporciona aderência ao conhecimento. O saber pode ser volátil, se não for ensinado e entregue de maneira que fique com quem o recebe. É ensinar para aprender, e não para exibir o que se sabe. Portanto, o modo como se transfere o conhecimento é fundamental para a qualidade da sua essência.
- E o terceiro nível é a aplicação prática. Conhecimento bom é aquele que proporciona benefícios reais e mensuráveis para a sociedade, parcialmente ou como um todo. Conhecimento útil é aquele que, quando aplicado na prática profissional, resolve problemas e melhora a vida das pessoas. É conhecimento do bem, para o bem de todos!
O conhecimento de qualidade é aquele que tem bom conteúdo; que é bem ensinado e aprendido; e que tem aplicação prática para o bem das pessoas, da sociedade e do ambiente em que vivemos.
Exemplo de caso: o zolpidem
Imagine você, um cliente que frequenta a farmácia onde você trabalha, e que está em tratamento com um medicamento de hemitartarato de zolpidem para insônia. Ele utiliza um comprimido de 10 mg ao dia, sempre à noite, ao deitar-se para dormir. Sobre este caso, cabe a você saber que o zolpidem é um fármaco indicado como hipnótico e sedativo. E que é quimicamente caracterizado como uma acetamida de imidazopiridina. O zolpidem é um fármaco não benzodiazepínico, que age sobre o receptor GABAA, especificamente no sítio benzodiazepínico associado à subunidade α1, conhecido funcionalmente como ômega-1 (ω1). Essa seletividade confere ao zolpidem ação predominantemente indutora do sono, com baixa atividade ansiolítica, anticonvulsivante e miorrelaxante, ao contrário dos benzodiazepínicos clássicos, que atuam em múltiplas subunidades (α1, α2, α3 e α5). O zolpidem apresenta curto tempo de meia-vida, em torno de duas a seis horas. Entre as reações adversas, estão a ocorrência de pesadelos, sonambulismo e alucinações visuais e hipnagógicas. Além disso, você deve saber que o zolpidem é um substrato parcial de isoenzimas do citocromo P-450, como as CYP 1A2, 2C8, 2C9, 2C19 e 2D6. Mas vale destacar que o zolpidem é principalmente metabolizado pela enzima CYP3A4. Portanto, fármacos inibidores da CYP3A4 podem interferir na biotransformação do zolpidem e, assim, elevar os seus níveis plasmáticos e intensificar os seus efeitos sedativo e hipnótico, bem como exacerbar as suas possíveis reações adversas.
Veja quanta informação compõe o conhecimento que devemos ter sobre este fármaco, e os medicamentos que o contêm! E para termos esse conhecimento é necessário, antes, aprendê-lo. E torna-lo um saber de aplicação prática!
Os fármacos inibidores da CYP3A4 podem, portanto, interagir de forma clinicamente relevante com o zolpidem. Isso acontece, por exemplo, quando o zolpidem é administrado conjuntamente com medicamentos antifúngicos orais contendo fármacos imidazólicos, como o cetoconazol e o itraconazol. Estudos clínicos demonstram que o uso conjunto desses medicamentos pode resultar em um aumento da biodisponibilidade do zolpidem. Esses achados possivelmente estão relacionados com a expressiva capacidade de inibição enzimática dos antifúngicos imidazólicos, que são potenciais inibidores da CYP3A4.
O desfecho dessa possível interação medicamentosa inclui o aumento indesejado dos efeitos sedativo e hipnótico do zolpidem, que se refletem, por exemplo, em excesso de sono durante o dia, principalmente pela manhã. E também por exacerbação de alucinações visuais e hipnagógicas. É importante destacar que diferentes antifúngicos imidazólicos podem inibir em diferentes níveis, ou graus de intensidade, a enzima CYP3A4. Portanto, as consequências desta possível interação medicamentosa dependem de qual antifúngico estará sendo usado. Nos casos em que essa associação farmacoterapêutica for inevitável, recomenda-se a utilização de uma dose menor do zolpidem. Dose esta que deve ser reajustada para os valores normais, após a conclusão do tratamento antifúngico. Essa interação medicamentosa se manifesta rapidamente, após o início da associação. A sua gravidade é considerada moderada, e o nível de confiabilidade das evidências científicas é classificado como bom.
Para onde seguimos?
Em tempos de inteligência artificial por todos os lados, se faz necessário escolher muito bem as ferramentas certas e confiáveis. Sim, muitas ferramentas de inteligência artificial podem ser muito úteis. Mas não podem substituir, de forma integral, o raciocínio clínico e a tomada de decisão do farmacêutico. Não dá para se basear apenas em um aplicativo de interações medicamentosas para tomar uma decisão correta. A interpretação dos dados, o senso crítico, o raciocínio clínico e a decisão quanto à melhor conduta de cuidado são insubstituíveis, embora possam se basear em dados de origem tecnológica. Na verdade, o farmacêutico precisa aprender a aplicar corretamente, e de forma ética, a tecnologia a favor do seu exercício profissional, para aprender o conhecimento de qualidade e otimizar a sua aplicação na prática. É preciso tecnologia digital de qualidade. E um método infalível para estudar e aprender de verdade, e de forma continuada, o que é necessário para exercer a profissão com segurança e convicção. É preciso saber Farmácia!
Parabéns pelo texto, Prof. Lincoln! A valorização do conhecimento e da atualização constante é o que torna o farmacêutico um verdadeiro agente de saúde e cuidado.