O tabu das interações medicamentosas
- Lincoln Cardoso
- 13 de jul.
- 4 min de leitura
As pessoas estão utilizando muito mais medicamentos nos dias atuais. E isto tem ocorrido por diversos fatores. Um destes, é o maior acesso aos serviços de saúde, devido a políticas públicas e por conta de alguns avanços sociais e econômicos. O acesso aos medicamentos também está mais fácil. Há farmácias ou drogarias em cada esquina, e até mesmo aquelas que atendem pela internet. Além disto, promoções e propagandas induzem a aquisição de medicamentos como meros produtos de consumo. Ainda, há de se considerar o aumento da expectativa de vida da população. Quanto mais uma sociedade envelhece, mais ela precisa de medicamentos para conviver com as doenças crônicas com qualidade de vida.
O uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos é denominado como “polifarmácia”. Esta prática tem, primariamente, o propósito de cuidar da saúde do paciente. Mas também pode provocar danos importantes, se for praticada de forma irracional ou não acompanhada por profissional habilitado. Os principais problemas decorrentes da prática da polifarmácia são as reações adversas aos medicamentos e as interações medicamentosas.
As interações medicamentosas são bem mais comuns, e frequentes, do que muitos profissionais acreditam. É fato que algumas das interações que ocorrem entre medicamentos não têm importância significativa. Portanto, estas situações não exigem acompanhamento, nem tampouco alguma intervenção clínica ou manejo.
Entretanto, muitas interações medicamentosas podem causar danos importantes à saúde das pessoas. Principalmente naquelas que utilizam medicamentos de forma contínua, para doenças crônicas, e que têm idade igual ou superior a 60 anos. Vale lembrar que este público consiste na maioria das pessoas atendidas pelas farmácias e drogarias. E também representa um grande número das internações hospitalares. Deste modo, é necessário que farmacêuticos e demais profissionais da saúdem vençam o tabu das interações medicamentosas.
Diversos estudos científicos demonstram exaustivamente a importância clínica das interações medicamentosas. Tanto indicando sua ocorrência e prevalência, quanto os seus prejuízos para a saúde pública em geral. Portanto, sejamos realistas em admitir: as interações medicamentosas ocorrem frequentemente no nosso dia-a-dia, e são bastante importantes!
Muitos farmacêuticos têm receio de tratar deste assunto, porque sentem-se inseguros para atuar diante das interações medicamentosas. Antes de identificar uma possível interação medicamentosa, o mais importante é prevê-la e evita-la. Isto deve acontecer no processo de seleção do medicamento a ser prescrito, ou quando da sua dispensação. Quando a interação já está em curso, é necessário identifica-la e decidir pela melhor estratégia de cuidado. Mas, para isto, o profissional precisa aplicar conhecimentos muito específicos. Principalmente nas áreas da Farmacologia, Toxicologia, Bioquímica, Química Farmacêutica e Medicinal, além da Semiologia. Somente com a aplicação destes conhecimentos, por meio do raciocínio clínico, é possível tomar a decisão mais correta e segura para o manejo de uma interação medicamentosa.
Mas por que muitos farmacêuticos ainda se sentem inseguros para manejar as interações medicamentosas? Esta é uma pergunta com diversas respostas possíveis. Algumas são:
O profissional não aprendeu tudo aquilo que precisa saber sobre interações medicamentosas na faculdade.
As interações medicamentosas consistem em um tema em constante evolução, devido a estudos frequentes de novos mecanismos e à introdução de novos fármacos na prática clínica. O que exige constante acompanhamento e atualização no tema.
O grande número de fármacos e medicamentos existentes, o que dificulta conhecer as possíveis variações de interações de medicamentosas possíveis.
Falta de tempo do profissional para estudar e se aperfeiçoar no assunto.
O fato é que, seja qual for a resposta, ela não exime o farmacêutico da sua responsabilidade social de atuar como referência diante das interações medicamentosas. É o farmacêutico o profissional da saúde especialista em fármacos e medicamentos! E, por isto, deve aplicar suas habilidades e competências para prevenir, rastrear, identificar, manejar e solucionar os casos de interações medicamentosas na prática clínica.
Cabe ao farmacêutico avaliar se precisa desenvolver estas habilidades e competências, para atuar de forma segura e com plena convicção diante destas condições. Esta é uma responsabilidade ética que não pode ser ignorada. Principalmente se considerarmos a realidade atual do uso dos medicamentos e os possíveis riscos do seu uso irracional à saúde das pessoas.
O maior erro que os farmacêuticos podem cometer neste campo de atuação é tentar “decorar” ou “gravar na memória” os possíveis casos de interações medicamentosas que ocorrem na farmacoterapia. As possibilidades de interações entre medicamentos são infinitas! Sem considerar as possibilidades de interações com alimentos, fitoterápicos e outras substâncias bioativas, como suplementos alimentares e o álcool etílico, por exemplo. Portanto, não há como saber ou decorar todas as possibilidades de interações medicamentosas! E ainda, esta forma de agir não permite ao profissional avaliar, de forma correta, a importância clínica de cada possível interação.
A forma mais adequada para se tornar um verdadeiro especialista em interações medicamentosas é conhecer os mecanismos pelas quais elas acontecem. Conhecendo estes mecanismos, e as propriedades dos fármacos envolvidos, todo farmacêutico é capaz de prever, rastrear, identificar, manejar e resolver qualquer caso de interação entre medicamentos. E até mesmo possíveis interações entre medicamentos e alimentos ou outras substâncias bioativas.
De um modo geral, as interações medicamentosas ocorrem por mecanismos farmacêuticos e farmacológicos. E, por sua vez, os mecanismos farmacológicos podem ser de ordem farmacocinética ou farmacodinâmica. E cada um destes tipos, podem ocorrer por mecanismos ainda mais específicos. Assim, entender os aspectos diferenciais destes mecanismos, e como eles ocorrem, permite ao profissional exercer o raciocínio clínico com maior precisão e convicção. Decorar ou gravar mentalmente possíveis situações de interações não favorece a resolução de problemas e limita o profissional a poucos possíveis casos.
A realidade das interações medicamentosas requer profissionais de atitude e iniciativa! Capazes de vencer o tabu das interações medicamentosas! É necessário que os farmacêuticos reconheçam quais habilidades e competências precisam desenvolver e, assim, se aperfeiçoar para atuarem com confiança e de forma resolutiva nestas situações. Somente farmacêuticos com postura responsável e competências clínicas são capazes de resolver interações medicamentosas e contribuir de forma efetiva com a farmacoterapia e a saúde das pessoas.
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